LITERATURA > Contos
20/10/2026
Miguel Angel Pereyra
Um porto alegrense argentino fazendo contos
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Fio de Bigode
1ª Parte
A Senhora
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Uma caminhada imaginária, sem rumo, na interiorana cidade natal.

Ao acaso, apareceu o velho prédio. Desde o seu primeiro registro, 1873, ele ai sempre esteve.
Os anos passados, com auréola de antigo o definiram e o pintaram com brumas que obscurecem a sua origem.
Na nossa infância, era um prédio mais.

Hoje, assumiu esse ar de mistério profundo e perpétuo,
que permite à imaginação popular recheá-lo de românticas ou tétricas histórias.
Histórias, casos e anedotas que brigam entre si tentando, cada uma, ser a verdade absoluta.
Então, única. Sem entender que, quiçá, todas elas o são.
Como roupas guardadas em um baú, esperando pacientemente sua vez de vestir seu dono.
Vez esta propiciada por qualquer um, que mexendo na sua memória tenha acesso ao baú.
Consiga abri-lo e dele extrair “uma história” para contá-la e fazer que o olhar de todos,
agregue mais essa pétala de saudade aos tempos que se passaram.
As lágrimas que agora se derramam e os risos que agora se distribuam,
sustentam a vida da casca material que hoje subsiste e perpetuam a existência
de alguns dos que foram seus muitos inquilinos.
E eu, hoje estou abrindo o baú.

O prédio albergava no andar térreo, um botequim. Sua entrada, pela esquina,
e uma vez dentro, a ambientação conforme a lei antiga. Isto é, aos costumes.
Balcão alto de madeira, polido e brilhante pelo uso. Uma vitrine com bebidas.
Mesas e cadeiras. Tão rústicas como fortes. Várias mesa de sinuca.

E todo iluminado por fracas e pioneiras lâmpadas incandescentes,

de luzes quentes e ainda colocadas em lampiões reformados.
Paroquianos habituais, que compartiam seus dramas revelando-os a eventuais parceiros,
na busca de um alívio embora momentâneo, não por isso menos eficaz.
Mais ainda, o dono, homem de uns trinta e cinco anos, que parecia estar sempre irritado.
E seu ajudante, moço novo e bem solícito, mas não servil.
E como todas as coisas tratando-se de humanos, por trás dessa cena diária,
aninhava-se o verdadeiro poder. Impossível de ser anulado, pois igual ao dinheiro, peculiar era sua anonímia.
Como a luz de um dia nublado. Sempre presente, regular e para todos, mas sem revelar sua origem.
Vamos a chamá-lo de “A Senhora”.

Sua força era a fortuna familiar e sua condição a de esposa do dono do bar,
que sempre funcionou no vermelho, e que por ela era mantido
para dar uma ocupação ao seu marido, a quem sempre amou.
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Tema musical
NostalgiasMúsica e Imagens são do site pixabay* * * * * *
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