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Chico_Gago - Sem Pausas...Vírgula!

Pausas e Vírgulas, você parou?
Se parei?, virgula.
Fiz uma pausa, tão só...
Mas veja como continuo;
Sem Pausas...Vírgula!
Sem Pausas...
...Vírgula !
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Sem Pausas...Vírgula!
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LITERATURA > 4ª Série > DESTINOS
03/12/2024
De um conto Conhecido
Chico, o Gago
Chico, o Gago, na fazenda era objeto de constantes piadas. Seu pai, Don Ambrósio Lara, já velho e quase inútil para o trabalho, arrastava seus últimos anos no lombo de um cavalo garço, com ossos salientes e sua marcha entre o passo e o trote.
Eles dois faziam as viagens juntos; porque, em caso de necessidade, os doze anos do menino serviam mais que a experiência do velho: fosse para um tiro de laço, para a operação de um animal doente ou, algo mais frequente naquela época, para courear algum outro animal morto que, inchado ao ponto do exagero, levantava  duas patas para o céu num esforço póstumo.
 
Natividade, a segunda esposa de Dom Ambrósio (que Deus sabe se foi), conseguia controlar esses dois semi-homens sem que a obesidade mulata a impedisse de estar atenta a tudo.
- Ambrósio - gritou ela, repreendendo o velho -, você não desamarrou a mula da roda d'água e juro que a água vai-se derramar.
- Tá...Tá, respondeu o velho, balançando a cabeça com um vago sorriso de bondade.
- Ave Maria, nem mesmo que o padre tenha se distraído na missa.
 
E ele se afastava lentamente; a correia do chicote varrendo o chão, as pernas arqueadas, o avental de couro acompanhando o movimento dos quadris que se comunicava com o enorme facão em balanço desigual.
A silhueta do velho gaúcho desapareceu entre os paraísos, e logo o menino, seguindo seus passos, tomou o mesmo caminho. E assim, como era habitual, desapareceram por muitas horas.
Dona Natividade passava o tempo soltando o rebanho, alimentando as galinhas, preparando a comida e chutando os cachorros, sempre na cozinha.
 
Comiam em silêncio, e só o mate compartido trazia, de vez em quando, suas conversas. O motivo eram os acontecimentos recentes na cidade, que algum charlatão contava à sua maneira. Casamentos, carreiras e, sobretudo, brigas traziam seus extensos comentários dos anciãos na presença invariavelmente muda do menino, taciturno até com os pais.
Às vezes, quando a ocasião tornava isso inevitável, ele começava a tropeçar em uma letra. “Canta, canta”, lhe dizia a mãe; e sobre uma melodia melancólica e sem sentido, as palavras eram arrastadas com um gemido nasal, enquanto o rosto mantinha a sua habitual expressão ausente.
 
Um dia, numa hora inesperada, o barulho de uma corrida chamou a atenção de Dona Natividade em direção ao palanque. O rosto de Chico tinha uma expressão de dor.
Ele fez sinais desesperados. “Canta, gurí”, gritou a mãe, ansiosa; mas foi inútil.
Obedecendo aos repetidos sinais e recuperando num momento de angústia a agilidade da juventude, a velha subiu nas ancas do cavalo do filho, e assim se foram.
O lugar era perto do bebedouro.
Cavalo e cavaleiro formavam um grupo de velha magreza.
O cavalo tentou se levantar, mas seu desejo foi em vão.
Sentiu nas costas um vazio que o pesava e com todo o esforço conseguiu esboçar um olhar para o seu amo, caído a poucos passos de distância, a cabeça na beirada do bebedouro, uma ferida incolor apertada na testa, com osso exposto.
 
Uma espora desapareceu enterrada no chão, e o chiripá preto, revirado em dobras desordenadas, envolvendo o cadáver como um crespão de luto.
Assim morrera Dom Ambrósio — talvez de velhice —, arrastando na queda o cavalo impotente, cujo olho azul já não refletiria mais, em claro brilho, a sua alma de escravo bondoso.
 
O filho assistia a tudo isso, o torso abalado por pequenos arrepios nervosos, como se o choro lhe tivesse gaguejado na garganta.
E apesar dos rogos da mãe, que exigia detalhes, Chico não cantou nesse dia.
* * * * * *
Conto publicado no ano 1915
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Conclusão do site Sem Pausas...Vírgula

Chico ficou sozinho.
Embora acompanhado da tristeza causada pelo episódio em que perdeu o pai,
e o medo do que estava por vir, foi o motivo pelo qual ele não cantou naquele dia.
Tanto a tristeza quanto o medo também nos invadem, pois somos humanos e entendemos suas causas.
Só que não sabemos o que aconteceu a seguir.
É uma pena que Güiraldes, o autor da história, não tenha escrito sobre
os momentos imediatamente posteriores à morte do pai.
A mãe, que não era sua cúmplice como Dom Ambrósio, não entendeu que Chico só precisava nesses momentos,
de um grande e prolongado abraço materno, ou seja, uma espécie de canção de ninar.
No nosso final é Chico quem diria:
Cante, mãe!
* * * * * *
Sem Pausas...Vírgulas!

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